(FICHAMENTO) Linha e Superfície PDF Imprimir E-mail
Comunicação Comparada I
Escrito por Cadu Xavier   
Seg, 01 de Dezembro de 2008 00:00

FLUSSER, Vilém. Linha e superfície. In: O mundo codificado. São Paulo: Cosa&Naify, 2007.



• As superfícies adquirem cada vez mais importância no nosso dia-a-dia. Estão nas telas de televisão, nas telas de cinema, nos cartazes e nas páginas de revistas ilustradas, por exemplo. As superfícies eram raras no passado. Fotografias, pinturas, tapetes, vitrais e inscrições rupestres são exemplos de superfícies que rodeavam o homem.
• Outro problema de maior importância existia no passado: a tentativa de entender o significado das linhas. [...] as linhas são discursos de pontos, e que cada ponto é um símbolo de algo que existe lá fora no mundo (um “conceito”). As linhas, portanto, representam o mundo ao projetá-lo em uma série de sucessões. Desse modo, o mundo é representado por linhas, na forma de um processo. O pensamento ocidental é “histórico” no sentido de que concede o mundo em linhas, ou seja, como um processo.
• Mas não exageremos: somente poucos sabiam ler e escrever [...] mas a invenção da imprensa vulgarizou o alfabeto.
• Atualmente isso deixou de ser assim. As linhas escritas, apesar de serem muito mais freqüentes do que antes, vêm se tornando menos importante para as massas do que as superfícies.
• [A] ADEQUAÇÃO DO “PENSAMENTO-EM-SUPERFÍCIE” AO “PENSAMENTO-EM-LINHA” [...] qual a diferença entre ler linhas escritas e ler uma pintura? [...] precisamos seguir o texto se quisermos captar sua mensagem, enquanto na pintura podemos apreender a mensagem primeiro e depois tentar decompô-la. Essa é, então, a diferença entre linha de uma só dimensão e a superfície de duas dimensões [...].
• [...] “tempo histórico” [...]
- (ESCRITA) Isso implica um estar-no-mundo “histórico” para aqueles que escrevem e que lêem esses escritos.
- (SUPERFÍCIES) Isso implica uma maneira a-histórica de estar-no-mundo para aqueles que produzem e que lêem essas superfícies.
- (TV e CINEMA) Isso estabelece um estar-no-mundo pós-histórico para aqueles que produzem e usufruem desses novos meios.
• [...] podemos admitir que atualmente o “pensamento-em-superfície” vem absorvendo o “pensamento-em-linha”.
• [B] ADEQUAÇÃO DO “PENSAMENTO-EM-SUPERFÍCIE” À “COISA” [...] Como não temos experiência imediata com elas, a mídia torna-se para nós a própria coisa. “Saber” é aprender a ler a mídia, nesses casos. Não importa se a “pedra” (foto) ou então a partícula alfa ou os seios da senhorita Brigitte Bardot estão “realmente” em algum lugar lá fora, ou se apenas aparecem na mídia: essas coisas são reais na medida em que determinam nossas vidas.
• [...] vivemos, falando de forma crua, em três reinos – o reino da experiência imediata (a pedra lá fora), o reino das imagens (a fotografia) e o reino dos conceitos (as explicações). [...] Por conveniência, podemos denominar o primeiro reino de “o mundo dos fatos” e os outros dois de “o mundo da ficção”.
• [...] Códigos imagéticos (como filmes) dependem de pontos de vista predeterminados: são subjetivos. São baseados em convenções que não precisam se aprendidas conscientemente: elas são inconscientes.
• [...] Códigos conceituais (como alfabetos) independem de um ponto de vista predeterminado: são objetivos. São baseados em convenções que precisam ser aprendidas e aceitas conscientemente: são códigos conscientes.
• Os fatos são representados pelo pensamento imagético de maneira mais completa, e são representados pelo pensamento conceitual de maneira mais clara. As mensagens da mídia imagética são mais ricas e as mensagens da mídia conceitual são mais nítidas.
• Nossa civilização coloca à nossa disposição dois tipos de mídia. Aquelas tidas como ficção linear (como livros e publicações científicas) e outras chamadas de ficção-em-superfície (como filmes, imagens de TV e ilustrações). O primeiro tipo de mídia pode fazer a interface entre nós e os fatos de maneira clara, objetiva, consciente, isto é, conceitual, apesar de ser relativamente restrito em sua mensagem. O segundo tipo pode fazer essa mediação de maneira ambivalente, subjetiva, inconsciente, ou seja, imagética, mas é relativamente rico na sua mensagem. Podemos participar dos dois tipos de mídia, mas o segundo tipo requer, para isso, que primeiramente aprendamos a usar técnicas. Isso explica a divisão de nossa sociedade em uma cultura de massa (aqueles que participam quase exclusivamente da ficção-em-superfície) e uma cultura de elite (os que participam quase exclusivamente da ficção linear).
• Para a elite, o problema é que quanto mais objetiva e clara se torna a ficção linear, mais pobre ela fica.
• Para a cultura de massa, o problema é que quanto mais tecnicamente perfeitas vão se tornando as imagens, tanto mais ricas elas ficam e melhor se deixam substituir pelos fatos que em sua origem deveriam representar.
• O que se passa atualmente talvez seja a tentativa de incorporação do pensamento linear ao pensamento-em-superfície, do conceito à imagem, da mídia de elite à mídia de massa.
• Até agora a situação tem sido mais ou menos esta: o pensamento imagético era uma tradução do fato em imagem e o pensamento conceitual era uma tradução da imagem em conceito.
• [...] o pensamento imagético está se tornando capaz de pensar conceitos.
• Mas esses dois tipos de mídia podem se unir numa relação criativa. Deverão surgir, assim, novos tipos de mídia, o que tornará possível que se descubram os fatos novamente, abrindo novos campos para um novo tipo de pensamento, com sua própria lógica e seus próprios tipos de símbolos codificados. Em resumo: a síntese da mídia linear com a de superfície pode resultar numa nova civilização.
• [C] RUMO AO FUTURO PÓS-HISTÓRICO [...] Em sua primeira posição, o homem encontra-se em meio a imagens estáticas (os mitos). Em uma segunda posição, coloca-se entre conceitos lineares progressivos (a historia). Em uma terceira posição, ele se vê em meio a imagens que ordenam conceitos (o formalismo). Mas essa terceira posição implica em estar-no-mundo tão radicalmente novo que se torna difícil compreender seus múltiplos impactos.
• Tudo isso é utópico. Mas não é fantástico. Aquele que olha a cena atual poderá achar tudo isso lá, na forma de linhas e superfícies já em funcionamento. O tipo de futuro pós-histórico que existirá dependerá de cada um de nós.

 

 

Diário Mackenzista

Cadu Xavier

Um jornalista Mackenzista!


Sou natural de Assis/SP, onde
estudei do Ensino Básico ao
Ensino Médio. Em 2006, fui
morar em Loppiano, na Itália,
pelo Movimento do Focolares.

Em 2007, fui morar em São Paulo
para estudar Comunicação Social,
na Universidade Presbiteriana
Mackenzie, onde, em 2011,
me formei Jornalista!